Eu não me movi, apenas fiquei a olhá-lo. A imagem não tão nítida mas mesmo assim, a que eu mais queria ver. Ele me encarava, esperando que eu gritasse ou então tivesse um surto. Não, não iria fazer isso. Ele estava ali, o meu Lucca. Fechei meus olhos, contei até 10 e então os reabri. Ele continuava ali, me encarando.
- Sofia? – A voz dele estava normal, como sempre era. Era mesmo o meu Lucca, e mesmo que não fosse, era melhor que nada. Ele andou em minha direção, me olhando. – Sofia, você está me ouvindo? – Eu fiz que sim com a cabeça, sentindo o travesseiro molhado. Pelas minhas lágrimas. – Sofia... – Ele respirou fundo, talvez não pudesse chorar, mas mesmo assim seu rosto estava repleto de emoção. – Você está bem? – Eu fiz que não, escondendo então meu rosto no travesseiro. – Antes que eu volte... Eu tenho que te falar uma coisa. – Eu levantei novamente meu rosto, ele estava mais próximo. Minha tentação era a de tocá-lo, mas... Meus braços simplesmente não se moviam por medo. – Eu te amo.
Existem momentos em nossas vidas, que percebemos que tudo o que fizemos até então não faz sentido. Nada realmente importa, e nada realmente não importa. Tudo tem o mesmo valor, se analisarmos bem. Porém estamos com tanta pressa na maioria das vezes, e estamos tão iludidos por algum sentimento, que não nos damos conta, e escolhemos um “algo” para se tornar a melhor coisa da nossa vida. O meu “algo” era ele.
Eu não sabia que horas havia dormido novamente, talvez assim que ouvi aquela frase. 7 letras, 3 palavras. Quando acordei, ele simplesmente não estava mais lá. Me lembrei de quando ele disse que teria que voltar. Uma lágrima caiu, mas na verdade, eu sentia como se estivesse tudo bem. Não sabia por que ou como, mas estava.
Olhei para o despertador, eu estava dispensada da escola por tempo indeterminado, segundo meus pais e meu psicólogo. Não me importava mais. Saí da cama, e então fui até o armário, pegando roupas que eu normalmente usaria para ir à escola. Fiquei na frente do espelho, esperando que ele voltasse. Passei os olhos pelo meu rosto, eu estava agoniada, realmente como se procurasse por algo muito importante.
Desci para o café da manhã, a mochila nas costas e as unhas na boca, as roendo. Meu irmão sorriu, novamente como se nada de extraordinário estivesse acontecendo. Meu pai e minha mãe já haviam saído. Ele perguntou se eu queria algo para comer, eu disse que sim, que estava com fome.
- Quer carona para a escola? – Eu fiz que sim novamente. Depois de alguns minutos estávamos dentro de seu carro, e após mais alguns estávamos na porta da escola. – Tenho que ir trabalhar, qualquer coisa me ligue, certo? – Eu sorri, agradecida pela preocupação. Ele beijou minha testa e eu saí do carro. Todos me encaravam. Alguém se aproximou, e eu demorei alguns minutos para perceber que era Gabrielle. Ela era minha melhor amiga, até que cortei relações com todo o mundo e tranquei a porta de meu quarto, para que ninguém nunca mais me incomodasse.
- Oi. – Ela estava tão nervosa quanto eu.
- Oi... – Eu mordi meu lábio, o resto das pessoas ainda me encarava. – Me desculpa? – Ela sorriu, e então me abraçou.
- Ignore as pessoas, com o tempo tudo volta ao normal. – Eu fiz que sim com a cabeça, e ela então começou a entrar comigo na escola, com um braço ao redor da minha cintura, praticamente me obrigando já que sabia que agora a minha vontade era a de fugir. Estudávamos na mesma sala, o que praticamente ajudava e muito. Ela se sentou do meu lado, no fundo. As aulas passaram normais, apenas tive que me esforçar em tentar acompanhar as matérias. Mas isso iria acontecer de qualquer forma.
- Bem, em resumo é isso, tudo. – Ela sorriu, terminando de contar os últimos acontecimentos da cidade em detalhes. Agora eu estava a par ao menos das novidades, ou “fofocas”. Me levantei do sofá, metade da pipoca que estava no meu colo caindo. Fui até a cozinha e peguei um refrigerante de novo para tomar. Comecei a andar de volta para a sala.
- Sofia... – Eu me virei, o procurando.
- Lucca? – Ele estava ali, eu tinha certeza, absoluta. – Lucca? – Eu comecei a andar, o procurando. Olhei no jardim inteiro e também no resto da cozinha. Comecei a andar pela casa.
- O que foi? – Eu ignorei Gabrielle. Continuei a procurá-lo. Subi as escadas apressada, sem saber aonde ele poderia estar.
- Sofia... – Eu entrei no meu quarto, e lá estava ele, simplesmente me olhando.
- Você voltou. – Fechei a porta atrás de mim, e comecei a andar na direção do garoto. A porta se abriu e ele evaporou.
- Sofia, você está bem? – Eu me virei, para encará-la. – O que aconteceu? – A expressão dela estava assustada. Ela simplesmente correu e me abraçou. – Está tudo bem, ok? Não precisa chorar... – Eu suspirei, continuando a mentira que se formava na cabeça dela.
- Foi mal... Estou melhor, juro. – Eu limpei o rosto, e ela me levou para baixo.
- O conselho a partir de agora concorda então, sobre a destruição da ponte dos mundos? – Muitos homens de negro levantaram as mãos. Um dos poucos não o fizeram levantou a voz, perguntando.
- E quanto a aqueles que simplesmente já estão no outro mundo? – Houveram vários murmúrios. – Eles ficarão presos? Isso os destruiria! – As pessoas concordaram.
- Seria a pena que deverão pagar por interferirem na vida dos mortais. – Mais murmúrios aconteceram.
- Godlök, você mesmo já cometeu este delito. – Todos encararam o líder da dimensão soberana. Ele ficou vermelho de vergonha. – Não venha agora culpar a todos, por simplesmente sentir falta dos entes queridos. Você simplesmente não volta, por que todos os que você amava já estão mortos. Por você, diga-se de passagem.
- Isso é imprudência! Todos já fizemos isso, e agora é o momento em que todos deverão parar.
- Que tal simplesmente esconder a ponte? – Disse um homem ao lado de Godlök.
- Onde?
- Não em um lugar fixo, mas sim em alguém. – Todos pensaram e assentiram.
- Em quem? – Eles pararam para pensar.
- Em alguém que demore para morrer, e que esteja entrelaçada com alguma das profecias. – Todos assentiram. – Quando esta pessoa morrer, simplesmente transferimos para outro corpo. Isso não as afetará, de qualquer forma. Ao escondermos a ponte, apenas aqueles que souberem do segredo poderão atravessar. – As pessoas assentiram novamente. – Escolhemos de forma aleatória então, apenas um de nós irá saber em quem foi escondido, e os outros jamais deverão perguntar onde. A sessão acabou. – Godlök se levantou, indo até a porta dos fundos e a atravessando. Um de seus conselheiros o acompanhou.
- Você deverá escolher ainda hoje, antes que a notícia de que a ponte será escondida se espalhe. – Godlök assentiu. – Você deverá agir agora. – Godlök parou de andar. Foi até a janela e então observou o tribunal dos espíritos. Na verdade era um conselheiro de três cabeças, que simplesmente ajudava os espíritos recém chegados a irem ou permanecer na dimensão soberana. Poucos realmente permaneciam, a maioria voltava para ver os entes que amavam. Ou então para atormentar aquele que mais o atormentava.
- Já está feito. – O homem o encarou.
- Já? – Todos sabiam que Godlök era o protetor da ponte. Na verdade era também seu criador. Ele encarou o conselheiro, assentindo com a cabeça.
- Sim, agora é apenas esperar a revolta que está por vir após todos descobrirem. – Os dois se encararam. Apesar de tudo, conter a revolta seria fácil.
domingo, 4 de julho de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
Capítulo 2 - Quando ele voltou.
Lucca estava sentado em uma cadeira. Não, ele estava sentado em um banco de tribunal. Ele estava sendo julgado. 3 homens estavam sentados no lugar do júri. Não, era um homem de 3 cabeças.
- Decida-se agora. – A cabeça do meio falou. Era uma mulher ruiva, com nariz pontudo.
- Deixe ele pensar mais sobre o que ele viveu. – Sussurrou a segunda. Era um homem velho, com barbas e cabelos brancos.
- Pra que um julgamento se a decisão dele é a unânime? – Gritou a terceira, aborrecida.. Era simplesmente o rostinho de um bebê.
- Calem a boca! – Lucca gritou em resposta. – Me deixem raciocinar em paz. – Ele fechou os olhos, as três cabeças o encararam. Em um pequeno flash, Lucca se encontrou na frente deles. Agora ele estava de pé. Ele encarou as três cabeças.
- Seu tempo acabou. – A cabeça da esquerda disse.
- Não, eu tenho todo o tempo do mundo. – Lucca encarou um letreiro no alto, que antes não estava ali. As luzes em neon brilhavam, “Aqui você tem o tempo que quer.” As cabeças gritaram de pânico.
- Como ele consegue materializar coisas? – A da direita estava apavorada.
- Ele simplesmente deve ter estudado!
- Ainda assim ele não se decidiu. E quanto mais tempo ele passar aqui, mais tempo longe de lá, dela.
- CALEM A BOCA! – Lucca se enfureceu. Sentou-se no chão, coçando o queixo e então continuando a pensar. – Pense Lucca, voltar? Ficar? Se eu for, ela poderá sofrer. Se eu continuar meu destino, poderei simplesmente ser feliz e esperar por ela... – As três cabeças gritaram novamente, desta vez de forma solo.
- ACABOU O TEMPO! – Lucca mostrou o dedo do meio para eles.
- Certo, eu volto... – Um clarão aconteceu, e tudo ficou turbulento.
Eu estava sentada. Calma. Uma luz simplesmente estava brilhando acima da minha cabeça, a lua. Alguém estava me olhando de longe, eu podia sentir, porém não tinha coragem de observar o quê ou quem era. Ouvi passos, e em pânico me virei.
- Oi belezinha... – Um homem velho, não tão velho, vinha na minha direção. Olhei para os lados, estava sozinha. Eu me levantei, e então comecei a andar na direção oposto a dele, indo embora.
- Tenho que ir, me desculpe... – Eu corri, mas então alguém segurou meu braço. Me virei, o homem sorria maliciosamente.
- Adoro perfumes, sabia? Sua flor deve ter um delicioso... – Fiquei pálida, meu braço começou a doer. De repente o homem estava caído na minha frente. Me virei, um garoto loiro tinha acabado de nocauteá-lo.
- Está tudo bem? – O sorriso dele era o mais lindo que eu já havia visto. Os olhos eram extremamente negros, o que eu odiava, mas mesmo assim, eram lindos.
- S-sim... – Ele olhava para o homem, nem sequer havia me olhado ainda.
- Esse idiota... – Ele olhou nos meus olhos, ficando em silêncio por um segundo, e então fazendo uma cara de bebê confuso. – O que você fazia aqui sozinha? – Ele coçou a bochecha, arqueando então uma sobrancelha.
- Não sei, apenas caminhava, e me sentei um pouco... – Ele sorriu.
- Somos almas gêmeas então, fazia o mesmo. – Eu sorri. – Posso te acompanhar para casa? – Meu corpo entrou em pânico, era outro tarado.
- Acho melhor não... – Comecei a andar, no mesmo sentido que antes.
- Ok então... – Ele não me seguiu. Virei o meu rosto, ele apenas me olhava, decepcionado. Não resisti e então parei. O garoto sorriu para mim, e então começou a vir em minha direção. – Qual o seu nome?
- Sofia... E o seu?
- Lucca... – Tudo ficou turbulento novamente.
Era meu aniversário de 17 anos, eu havia passado o dia perfeito. Lucca simplesmente me levara a todos os nossos locais favoritos, e então voltamos para o parque municipal. Era proibido ficar ali de noite, então pulamos os muros. Ele pegou uma cesta de piquenique e simplesmente me puxava, eu não tinha opções.
- Anda... – Ele fazia uma cara séria, quase como se mandasse em mim. Estávamos mais velhos, 2 anos para ser exato. Não íamos aquele local a algum tempo... Ele parou, e então sorriu para mim, de forma maquiavélica. – Chegamos! – Eu olhei para os lados, estávamos no meio de um caminho.
- Onde estamos? – Ele apertou meu braço, e então falou em uma voz grossa e forçada.
-Adoro perfumes sabia? – Eu mordi meu lábio, em pânico, e então comecei a rir.
- Fazem dois anos... – Era verdade, aquela noite, anos atrás, era a noite do meu aniversário. Ele estava sério, o rosto simplesmente angelical. Eu assenti, e então nos sentamos. Lucca começou a tirar comidas e mais comidas, apenas o que mais gostávamos. Ficamos em silêncio por mais alguns minutos. Ele olhou para a lua. – Eu nunca te contei, do porque eu vim aqui aquela noite... – Eu fiquei séria, realmente não havia pensado naquilo. Ele ainda olhava para a lua. – Meu pai morreu a 3 anos atrás, exatamente hoje. Vínhamos nesse parque praticamente todos os dias. Ele amava aqui, e eu o amava. Era meu melhor amigo... – Os olhos dele estavam lacrimejando, eu me sentei do lado dele.
- Está tudo bem... – Ele sorriu, me olhando. Os rostos próximos demais. Ele não se importava com aquilo, nunca se importava.
- Ele morreu de AIDS. O sistema imunológico dele simplesmente era quase nulo... Ele pegou uma doença qualquer e... – Eu apertei a mão dele. – Eu tenho que te contar uma coisa. – Meus olhos lacrimejando, minha mente imaginando coisas ruins demais para ser verdade. – Eu sou soro positivo... – Meus olhos simplesmente se encharcaram.
- Você... – Ele me olhou, assustado.
- NÃO! Não pense bobagens, está tudo bem... Simplesmente queria que você soubesse. – Ele deitou a cabeça no meu ombro. – Você é a pessoa mais importante para mim, entende? No mundo inteiro. – Meu coração acelerou.
- Você também é a pessoa mais importante para mim. – Ele sorriu. Simplesmente me deu um beijo no rosto, e então a imagem mudou novamente.
Estávamos bêbados, em alguma boate. Lucca estava do meu lado, conversando com alguém, e eu olhava para os homens apenas de cueca no palco.
- Cara, porquê vocês não namoram logo? – O garoto sussurrou. Eu arregalei meus olhos, e olhei para o menino do lado de Lucca. Era Rodrigo, um menino da escola que supostamente se considerava melhor amigo dele.
- Simplesmente porquê somos amigos. – Meu coração se apertou, Lucca não havia reparado que eu prestava atenção na conversa.
- Nossa, mas vocês são o par perfeito... – Até mesmo as pessoas da escola achavam isso. Todos menos o Lucca.
- Não, simplesmente não podemos. – A voz dele foi se abaixando. – Não quero misturar meu sangue com o dela... Seria asqueroso, sentir que... – Eu comecei a chorar, ele me odiava? Ele se virou, assustado. – O que foi?
- Nada... – Ele sorriu para mim.
- Quer ir embora? – Eu fiz que sim com a cabeça. – Ok... – Ele se levantou, sem nem se despedir de Rodrigo e então me ajudou a sair da boate. Eu deveria ter entendido errado, ele era o meu príncipe, ele não iria falar aquilo...
Eu abri meus olhos, olhando para o teto. Agora eu realmente estava acordada. Suspirei, e então deitei minha cabeça, vendo então o vulto em pé, quase transparente, na minha frente.
- Não se assuste, por favor.
- Decida-se agora. – A cabeça do meio falou. Era uma mulher ruiva, com nariz pontudo.
- Deixe ele pensar mais sobre o que ele viveu. – Sussurrou a segunda. Era um homem velho, com barbas e cabelos brancos.
- Pra que um julgamento se a decisão dele é a unânime? – Gritou a terceira, aborrecida.. Era simplesmente o rostinho de um bebê.
- Calem a boca! – Lucca gritou em resposta. – Me deixem raciocinar em paz. – Ele fechou os olhos, as três cabeças o encararam. Em um pequeno flash, Lucca se encontrou na frente deles. Agora ele estava de pé. Ele encarou as três cabeças.
- Seu tempo acabou. – A cabeça da esquerda disse.
- Não, eu tenho todo o tempo do mundo. – Lucca encarou um letreiro no alto, que antes não estava ali. As luzes em neon brilhavam, “Aqui você tem o tempo que quer.” As cabeças gritaram de pânico.
- Como ele consegue materializar coisas? – A da direita estava apavorada.
- Ele simplesmente deve ter estudado!
- Ainda assim ele não se decidiu. E quanto mais tempo ele passar aqui, mais tempo longe de lá, dela.
- CALEM A BOCA! – Lucca se enfureceu. Sentou-se no chão, coçando o queixo e então continuando a pensar. – Pense Lucca, voltar? Ficar? Se eu for, ela poderá sofrer. Se eu continuar meu destino, poderei simplesmente ser feliz e esperar por ela... – As três cabeças gritaram novamente, desta vez de forma solo.
- ACABOU O TEMPO! – Lucca mostrou o dedo do meio para eles.
- Certo, eu volto... – Um clarão aconteceu, e tudo ficou turbulento.
Eu estava sentada. Calma. Uma luz simplesmente estava brilhando acima da minha cabeça, a lua. Alguém estava me olhando de longe, eu podia sentir, porém não tinha coragem de observar o quê ou quem era. Ouvi passos, e em pânico me virei.
- Oi belezinha... – Um homem velho, não tão velho, vinha na minha direção. Olhei para os lados, estava sozinha. Eu me levantei, e então comecei a andar na direção oposto a dele, indo embora.
- Tenho que ir, me desculpe... – Eu corri, mas então alguém segurou meu braço. Me virei, o homem sorria maliciosamente.
- Adoro perfumes, sabia? Sua flor deve ter um delicioso... – Fiquei pálida, meu braço começou a doer. De repente o homem estava caído na minha frente. Me virei, um garoto loiro tinha acabado de nocauteá-lo.
- Está tudo bem? – O sorriso dele era o mais lindo que eu já havia visto. Os olhos eram extremamente negros, o que eu odiava, mas mesmo assim, eram lindos.
- S-sim... – Ele olhava para o homem, nem sequer havia me olhado ainda.
- Esse idiota... – Ele olhou nos meus olhos, ficando em silêncio por um segundo, e então fazendo uma cara de bebê confuso. – O que você fazia aqui sozinha? – Ele coçou a bochecha, arqueando então uma sobrancelha.
- Não sei, apenas caminhava, e me sentei um pouco... – Ele sorriu.
- Somos almas gêmeas então, fazia o mesmo. – Eu sorri. – Posso te acompanhar para casa? – Meu corpo entrou em pânico, era outro tarado.
- Acho melhor não... – Comecei a andar, no mesmo sentido que antes.
- Ok então... – Ele não me seguiu. Virei o meu rosto, ele apenas me olhava, decepcionado. Não resisti e então parei. O garoto sorriu para mim, e então começou a vir em minha direção. – Qual o seu nome?
- Sofia... E o seu?
- Lucca... – Tudo ficou turbulento novamente.
Era meu aniversário de 17 anos, eu havia passado o dia perfeito. Lucca simplesmente me levara a todos os nossos locais favoritos, e então voltamos para o parque municipal. Era proibido ficar ali de noite, então pulamos os muros. Ele pegou uma cesta de piquenique e simplesmente me puxava, eu não tinha opções.
- Anda... – Ele fazia uma cara séria, quase como se mandasse em mim. Estávamos mais velhos, 2 anos para ser exato. Não íamos aquele local a algum tempo... Ele parou, e então sorriu para mim, de forma maquiavélica. – Chegamos! – Eu olhei para os lados, estávamos no meio de um caminho.
- Onde estamos? – Ele apertou meu braço, e então falou em uma voz grossa e forçada.
-Adoro perfumes sabia? – Eu mordi meu lábio, em pânico, e então comecei a rir.
- Fazem dois anos... – Era verdade, aquela noite, anos atrás, era a noite do meu aniversário. Ele estava sério, o rosto simplesmente angelical. Eu assenti, e então nos sentamos. Lucca começou a tirar comidas e mais comidas, apenas o que mais gostávamos. Ficamos em silêncio por mais alguns minutos. Ele olhou para a lua. – Eu nunca te contei, do porque eu vim aqui aquela noite... – Eu fiquei séria, realmente não havia pensado naquilo. Ele ainda olhava para a lua. – Meu pai morreu a 3 anos atrás, exatamente hoje. Vínhamos nesse parque praticamente todos os dias. Ele amava aqui, e eu o amava. Era meu melhor amigo... – Os olhos dele estavam lacrimejando, eu me sentei do lado dele.
- Está tudo bem... – Ele sorriu, me olhando. Os rostos próximos demais. Ele não se importava com aquilo, nunca se importava.
- Ele morreu de AIDS. O sistema imunológico dele simplesmente era quase nulo... Ele pegou uma doença qualquer e... – Eu apertei a mão dele. – Eu tenho que te contar uma coisa. – Meus olhos lacrimejando, minha mente imaginando coisas ruins demais para ser verdade. – Eu sou soro positivo... – Meus olhos simplesmente se encharcaram.
- Você... – Ele me olhou, assustado.
- NÃO! Não pense bobagens, está tudo bem... Simplesmente queria que você soubesse. – Ele deitou a cabeça no meu ombro. – Você é a pessoa mais importante para mim, entende? No mundo inteiro. – Meu coração acelerou.
- Você também é a pessoa mais importante para mim. – Ele sorriu. Simplesmente me deu um beijo no rosto, e então a imagem mudou novamente.
Estávamos bêbados, em alguma boate. Lucca estava do meu lado, conversando com alguém, e eu olhava para os homens apenas de cueca no palco.
- Cara, porquê vocês não namoram logo? – O garoto sussurrou. Eu arregalei meus olhos, e olhei para o menino do lado de Lucca. Era Rodrigo, um menino da escola que supostamente se considerava melhor amigo dele.
- Simplesmente porquê somos amigos. – Meu coração se apertou, Lucca não havia reparado que eu prestava atenção na conversa.
- Nossa, mas vocês são o par perfeito... – Até mesmo as pessoas da escola achavam isso. Todos menos o Lucca.
- Não, simplesmente não podemos. – A voz dele foi se abaixando. – Não quero misturar meu sangue com o dela... Seria asqueroso, sentir que... – Eu comecei a chorar, ele me odiava? Ele se virou, assustado. – O que foi?
- Nada... – Ele sorriu para mim.
- Quer ir embora? – Eu fiz que sim com a cabeça. – Ok... – Ele se levantou, sem nem se despedir de Rodrigo e então me ajudou a sair da boate. Eu deveria ter entendido errado, ele era o meu príncipe, ele não iria falar aquilo...
Eu abri meus olhos, olhando para o teto. Agora eu realmente estava acordada. Suspirei, e então deitei minha cabeça, vendo então o vulto em pé, quase transparente, na minha frente.
- Não se assuste, por favor.
Capítulo 1 - Quando ele se foi.
Acho que não percebi o que havia me atingido. Sabia que algo estava errado, muito errado, mas mesmo assim não entendia nada. As pessoas estavam a minha volta, todas elas me encarando, perguntando se eu estava bem. Meu corpo não tinha forças para responder. Eu pedi por um segundo para que pudesse morrer, ir junto com ele. Nada fazia sentido, nada mesmo. Eu suspirei, e então fechei os olhos. Alguém me balançou, achando que eu havia desmaiado. Agora era uma multidão a minha volta, e eu simplesmente não sentia necessidade de permanecer viva. As vozes aumentavam e aumentavam, mas para mim eram abafadas. Apenas escutava o batimento alto do meu coração.
A multidão em minha volta começou a dissipar, pelo menos as vozes começaram a ficar mais fracas e mais distantes. Percebi que estava sendo carregada. Alguém me colocou sobre algo duro, eu abri os olhos.
- Ela está bem! - Um paramédico passou a mão pela testa suada. - Você está bem? Quer algo? - Percebi que estava dentro de um carro. Não, de uma ambulância. Eu fechei meus olhos novamente, ele gritou algo. Senti a vida se esvaindo de mim, ou pelo menos tentando esvair. Nada mais importava. Eu apenas queria...
Novamente as vozes começaram, percebi que havia dormido. Certo, aquilo não era exatamente algo normal, já que eu evitava dormir a todos os custos. Era fã de café, e mais fã ainda de sofrimento. E eu o propiciava com vontade à todos ao meu redor. Menos a ele, porque ele importava.
- Filha? - A voz de minha mãe foi sussurrada ao lado de meu ouvido. Parecia preocupada, algo que raramente não era relacionado ao meu estado. Eu permaneci do jeito que estava. - Sabemos que está acordada, seus batimentos mudam quand...
- A deixem em paz. - A voz de meu irmão mais velho fez o resto das vozes se calarem. Minha mãe suspirou, e então saiu, acho. Alguém se sentou na minha cama. Uma mão começou a me acariciar. Percebi que ela estava molhada, por minhas lágrimas. - Está tudo bem... - Eu abri meus olhos, meu irmão sorria para mim de forma terna. Os olhos azuis dele e os cabelos negros simplesmente indo de realce com uma blusa verde limão.
- Me diz que isso não aconteceu... - Ele mordeu o lábio, e então tentou continuar em sua postura madura. Ele sofria, mas não tanto quanto eu.
- Me desculpe... - Soltei um grito. Não de dor física, e sim psicológica. Ele me sentou sobre a cama do hospital e então me abraçou. Não adiantava todo aquele teatro, ele não era ele, não era aquele que eu simplesmente queria ter. E agora nunca mais iria. - Se acalme, por favor. Você está aqui a dois dias... O velório já passou, o enterro é... - Eu levantei meu rosto. Não iria aceitar que ele se fosse, não enquanto eu ainda estivesse viva. Eu iria morrer, por ele. Seríamos Romeu e Julieta. - Vou pedir para alguém te ajudar a se arrumar, você precisa se despedir, mesmo que ache que isso não é o certo... - Eu não respondi, apenas passei os olhos pelo resto do quarto. Algo ali teria que me matar... - Você está na ala psiquiátrica, não na ala convencional do hospital. Nem pense nisso. - As lágrimas continuaram. Ele se levantou, dando um beijo leve em minha testa e andando em passos firmes até o corredor. Minutos depois uma enfermeira apareceu. Ela me ajudou a me vestir, apesar de que eu sinceramente nem ao menos percebia o que estava fazendo. Ela falou como eu estava bonita. Eu mandei ela se foder.
Meu irmão voltou, me levou até o carro e então dirigiu. Não fomos até o cemitério, fomos até uma praia. Um aglomerado de pessoas com vestes negras estavam em pé. Um padre recitava algo. Eu percebi que na verdade não estava andando, e sim sendo empurrada. Ótimo, estava em uma cadeira de rodas. Eu me levantei por impulso, me sentindo tonta no mesmo momento e então caindo.
- Sua teimosa... - Meu irmão me levantou.
- Me ajude, sem essa porcaria aí. - Ele suspirou e então me ajudou a andar. Meu corpo continuava sem nenhuma força. Sabia que meu rosto estava fúnebre. Eu estava agressiva, e iria mandar todos se foderem. A mãe de Lucca era a mais próxima de um grande pote transparente. Tinham cinzas dentro dele. Ela me viu se aproximar, e fez um gesto para que eu fosse até ela. Nunca fomos íntimas, mas mesmo assim eu não me importava. Ela me abraçou, e então nós duas fingimos escutar o que o padre falava.
- Você era a pessoa mais importante no mundo dele. - A voz dela estava baixa e calma. Eu não sabia se deveria comentar de volta, mas continuei em silêncio. - Mais até do que eu. - Ela me apertou, como se eu fosse a única coisa que ainda a prendesse naquele mundo. - Quero que vá até em casa, e que pegue dele tudo o que quiser. Apenas me diga o que pegou... - A voz dela foi morrendo. Eu assenti com a cabeça, era a única resposta que eu iria conseguir dar. O padre terminou de falar, e então ela foi até o pote. Ele estava ali, de forma completa, dentro daquele pequeno recipiente. Ela começou a girar a tampa, como se fosse o abrir. Um grito que dizia “não” foi ouvido assim que as cinzas voaram. O grito veio da minha boca. Tudo simplesmente ficou escuro novamente.
Dezenove dias se passaram. Todos me tratavam agora de forma um pouco melhor, afinal de contar eu havia parado de ter delírios e também de chorar em cantos escondidos. Eu aprendi com o tempo a mentir que tudo estava bem, que já havia superado que ele havia ido. Mas não havia. Nada estava bem.
- Sofia? – Meu irmão abriu a porta, um telefone em sua mão. Ele era o único que não havia me tratado melhor ou pior desde que tudo aconteceu. Ele era simplesmente o mesmo de sempre. – É a mãe do Lucca no telefone, vai atender? – Se fosse outra pessoa, teria parado no mínimo dois segundos pensando se seria seguro o suficiente para dizer o nome dele. Mas meu irmão era aquele completo tolo insensível. Ou talvez alguém muito sábio, que realmente se importava. Ele jogou o telefone, que caiu exatamente na minha frente. Eu o peguei.
- Alô? – Eu esperei, alguém conversava no fundo.
- Ah, Sofia? Bem... Quer vir aqui em casa hoje? – Eu suspirei.
- Na verdade não... – A outra voz também suspirou. Agora ela respondeu totalmente calma, talvez triste.
- Querida, eu vou me mudar. Amanhã. Já te disse isso... Se você não for pegar algo hoje, simplesmente será impossível de pegar algo depois... – Ela estava chorando. - Eu não consigo mais ficar aqui. – Eu encarei a foto de Lucca que praticamente dormia comigo.
- Certo... Eu vou agora, se estiver tudo bem. – A outra voz respondeu algo que eu não entendi. Nos despedimos, e então desliguei.
Eu fui até o guarda-roupa, e procurei por algo não preto. Ultimamente era apenas isso que eu usava, preto. Mas não me sentia a vontade em demonstrar ali, na casa dele, que ainda estava triste. Peguei uma roupa qualquer. Na verdade, peguei roupas que ele já havia dito antes que achava legal. Uma blusa branca, e uma saia rosa claro. Eu detestava saias... Mas era por ele. Me vesti demoradamente, e então desci as escadas. Apenas meu irmão estava em casa. Ele fingiu não perceber que eu estava saindo.
A porta marrom, parecia negra. As paredes amarelas simplesmente pareciam vermelho sangue. Eu estava paralisada na frente da casa de Lucca. Eu dei um passo, pisando no primeiro degrau. Um frio percorreu a minha espinha. Dei outro passo, e então me senti tonta. Dei outro passo, a porta se abriu.
A mãe de Lucca sorriu para mim, de forma desconfortável. Ela não falou nada. Eu respirei fundo, e continuei a andar. Entrei na casa, ela ficou quieta. Simplesmente fui até o quarto dele sem falar nada. O meu local preferido no mundo, naquele momento. Fechei a porta, e fui até a cama, me sentando nela. Tudo estava igual, as fotos, o travesseiro e até mesmo os livros de romance lidos continuamente em cima da escrivaninha.
Me deitei na cama, me lembrando da última vez que estávamos ali juntos. Ele apareceu semi-nu no quarto, um sorriso encantador. Senti que estava começando a ficar tonta, e então me concentrei. Aquele momento ali, mais parecia uma escolha de lembranças. Não peguei nenhuma foto, eu possuía cópia de todas. Peguei um caderno negro, que ele sempre carregava e riscava besteiras. Um colar de prata. Todos os anéis que ele tinha. Cartões, cartas, os livros...
- Não se esqueça... – Era a voz dele. Eu teria me assustado, porém não era a primeira vez que ela me aparecia. Já a estava escutando a dias.
- Não vou me esquecer.
- Que bom. – Senti então um clima tranqüilizador. Peguei a mochila dele, e então coloquei todas as coisas. Saí do quarto e desci as escadas. A mãe dele me esperava na entrada da casa. Ela abriu a porta, sem nem ao menos perguntar o que eu havia pegado. Eu saí.
Parei na frente da casa, encarando ela.
- Adeus. – Me despedi dele, em vão.
próximo capítulo: capítulo 2 - quando ele voltou
Prólogo.
Se existe alguém no mundo que me entende, é ele. Eu o amo, independente do fato de ele ser estranho, e um tanto quanto rebelde. Ele sabe disso, porém mesmo assim não diz o que sente sobre mim.
Meu coração sempre bate de forma acelerada quando ele se aproxima. Então eu sinto aquele abraço apertado, meu rosto cora e ele me diz o mais lindo "oi".
Algo está errado, ele não foi a escola hoje.
A professora simplesmente entrou chorando na sala de aula e... "Lucca morreu essa noite."
Algo está errado, ele não foi a escola hoje.
A professora simplesmente entrou chorando na sala de aula e... "Lucca morreu essa noite."
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