Acho que não percebi o que havia me atingido. Sabia que algo estava errado, muito errado, mas mesmo assim não entendia nada. As pessoas estavam a minha volta, todas elas me encarando, perguntando se eu estava bem. Meu corpo não tinha forças para responder. Eu pedi por um segundo para que pudesse morrer, ir junto com ele. Nada fazia sentido, nada mesmo. Eu suspirei, e então fechei os olhos. Alguém me balançou, achando que eu havia desmaiado. Agora era uma multidão a minha volta, e eu simplesmente não sentia necessidade de permanecer viva. As vozes aumentavam e aumentavam, mas para mim eram abafadas. Apenas escutava o batimento alto do meu coração.
A multidão em minha volta começou a dissipar, pelo menos as vozes começaram a ficar mais fracas e mais distantes. Percebi que estava sendo carregada. Alguém me colocou sobre algo duro, eu abri os olhos.
- Ela está bem! - Um paramédico passou a mão pela testa suada. - Você está bem? Quer algo? - Percebi que estava dentro de um carro. Não, de uma ambulância. Eu fechei meus olhos novamente, ele gritou algo. Senti a vida se esvaindo de mim, ou pelo menos tentando esvair. Nada mais importava. Eu apenas queria...
Novamente as vozes começaram, percebi que havia dormido. Certo, aquilo não era exatamente algo normal, já que eu evitava dormir a todos os custos. Era fã de café, e mais fã ainda de sofrimento. E eu o propiciava com vontade à todos ao meu redor. Menos a ele, porque ele importava.
- Filha? - A voz de minha mãe foi sussurrada ao lado de meu ouvido. Parecia preocupada, algo que raramente não era relacionado ao meu estado. Eu permaneci do jeito que estava. - Sabemos que está acordada, seus batimentos mudam quand...
- A deixem em paz. - A voz de meu irmão mais velho fez o resto das vozes se calarem. Minha mãe suspirou, e então saiu, acho. Alguém se sentou na minha cama. Uma mão começou a me acariciar. Percebi que ela estava molhada, por minhas lágrimas. - Está tudo bem... - Eu abri meus olhos, meu irmão sorria para mim de forma terna. Os olhos azuis dele e os cabelos negros simplesmente indo de realce com uma blusa verde limão.
- Me diz que isso não aconteceu... - Ele mordeu o lábio, e então tentou continuar em sua postura madura. Ele sofria, mas não tanto quanto eu.
- Me desculpe... - Soltei um grito. Não de dor física, e sim psicológica. Ele me sentou sobre a cama do hospital e então me abraçou. Não adiantava todo aquele teatro, ele não era ele, não era aquele que eu simplesmente queria ter. E agora nunca mais iria. - Se acalme, por favor. Você está aqui a dois dias... O velório já passou, o enterro é... - Eu levantei meu rosto. Não iria aceitar que ele se fosse, não enquanto eu ainda estivesse viva. Eu iria morrer, por ele. Seríamos Romeu e Julieta. - Vou pedir para alguém te ajudar a se arrumar, você precisa se despedir, mesmo que ache que isso não é o certo... - Eu não respondi, apenas passei os olhos pelo resto do quarto. Algo ali teria que me matar... - Você está na ala psiquiátrica, não na ala convencional do hospital. Nem pense nisso. - As lágrimas continuaram. Ele se levantou, dando um beijo leve em minha testa e andando em passos firmes até o corredor. Minutos depois uma enfermeira apareceu. Ela me ajudou a me vestir, apesar de que eu sinceramente nem ao menos percebia o que estava fazendo. Ela falou como eu estava bonita. Eu mandei ela se foder.
Meu irmão voltou, me levou até o carro e então dirigiu. Não fomos até o cemitério, fomos até uma praia. Um aglomerado de pessoas com vestes negras estavam em pé. Um padre recitava algo. Eu percebi que na verdade não estava andando, e sim sendo empurrada. Ótimo, estava em uma cadeira de rodas. Eu me levantei por impulso, me sentindo tonta no mesmo momento e então caindo.
- Sua teimosa... - Meu irmão me levantou.
- Me ajude, sem essa porcaria aí. - Ele suspirou e então me ajudou a andar. Meu corpo continuava sem nenhuma força. Sabia que meu rosto estava fúnebre. Eu estava agressiva, e iria mandar todos se foderem. A mãe de Lucca era a mais próxima de um grande pote transparente. Tinham cinzas dentro dele. Ela me viu se aproximar, e fez um gesto para que eu fosse até ela. Nunca fomos íntimas, mas mesmo assim eu não me importava. Ela me abraçou, e então nós duas fingimos escutar o que o padre falava.
- Você era a pessoa mais importante no mundo dele. - A voz dela estava baixa e calma. Eu não sabia se deveria comentar de volta, mas continuei em silêncio. - Mais até do que eu. - Ela me apertou, como se eu fosse a única coisa que ainda a prendesse naquele mundo. - Quero que vá até em casa, e que pegue dele tudo o que quiser. Apenas me diga o que pegou... - A voz dela foi morrendo. Eu assenti com a cabeça, era a única resposta que eu iria conseguir dar. O padre terminou de falar, e então ela foi até o pote. Ele estava ali, de forma completa, dentro daquele pequeno recipiente. Ela começou a girar a tampa, como se fosse o abrir. Um grito que dizia “não” foi ouvido assim que as cinzas voaram. O grito veio da minha boca. Tudo simplesmente ficou escuro novamente.
Dezenove dias se passaram. Todos me tratavam agora de forma um pouco melhor, afinal de contar eu havia parado de ter delírios e também de chorar em cantos escondidos. Eu aprendi com o tempo a mentir que tudo estava bem, que já havia superado que ele havia ido. Mas não havia. Nada estava bem.
- Sofia? – Meu irmão abriu a porta, um telefone em sua mão. Ele era o único que não havia me tratado melhor ou pior desde que tudo aconteceu. Ele era simplesmente o mesmo de sempre. – É a mãe do Lucca no telefone, vai atender? – Se fosse outra pessoa, teria parado no mínimo dois segundos pensando se seria seguro o suficiente para dizer o nome dele. Mas meu irmão era aquele completo tolo insensível. Ou talvez alguém muito sábio, que realmente se importava. Ele jogou o telefone, que caiu exatamente na minha frente. Eu o peguei.
- Alô? – Eu esperei, alguém conversava no fundo.
- Ah, Sofia? Bem... Quer vir aqui em casa hoje? – Eu suspirei.
- Na verdade não... – A outra voz também suspirou. Agora ela respondeu totalmente calma, talvez triste.
- Querida, eu vou me mudar. Amanhã. Já te disse isso... Se você não for pegar algo hoje, simplesmente será impossível de pegar algo depois... – Ela estava chorando. - Eu não consigo mais ficar aqui. – Eu encarei a foto de Lucca que praticamente dormia comigo.
- Certo... Eu vou agora, se estiver tudo bem. – A outra voz respondeu algo que eu não entendi. Nos despedimos, e então desliguei.
Eu fui até o guarda-roupa, e procurei por algo não preto. Ultimamente era apenas isso que eu usava, preto. Mas não me sentia a vontade em demonstrar ali, na casa dele, que ainda estava triste. Peguei uma roupa qualquer. Na verdade, peguei roupas que ele já havia dito antes que achava legal. Uma blusa branca, e uma saia rosa claro. Eu detestava saias... Mas era por ele. Me vesti demoradamente, e então desci as escadas. Apenas meu irmão estava em casa. Ele fingiu não perceber que eu estava saindo.
A porta marrom, parecia negra. As paredes amarelas simplesmente pareciam vermelho sangue. Eu estava paralisada na frente da casa de Lucca. Eu dei um passo, pisando no primeiro degrau. Um frio percorreu a minha espinha. Dei outro passo, e então me senti tonta. Dei outro passo, a porta se abriu.
A mãe de Lucca sorriu para mim, de forma desconfortável. Ela não falou nada. Eu respirei fundo, e continuei a andar. Entrei na casa, ela ficou quieta. Simplesmente fui até o quarto dele sem falar nada. O meu local preferido no mundo, naquele momento. Fechei a porta, e fui até a cama, me sentando nela. Tudo estava igual, as fotos, o travesseiro e até mesmo os livros de romance lidos continuamente em cima da escrivaninha.
Me deitei na cama, me lembrando da última vez que estávamos ali juntos. Ele apareceu semi-nu no quarto, um sorriso encantador. Senti que estava começando a ficar tonta, e então me concentrei. Aquele momento ali, mais parecia uma escolha de lembranças. Não peguei nenhuma foto, eu possuía cópia de todas. Peguei um caderno negro, que ele sempre carregava e riscava besteiras. Um colar de prata. Todos os anéis que ele tinha. Cartões, cartas, os livros...
- Não se esqueça... – Era a voz dele. Eu teria me assustado, porém não era a primeira vez que ela me aparecia. Já a estava escutando a dias.
- Não vou me esquecer.
- Que bom. – Senti então um clima tranqüilizador. Peguei a mochila dele, e então coloquei todas as coisas. Saí do quarto e desci as escadas. A mãe dele me esperava na entrada da casa. Ela abriu a porta, sem nem ao menos perguntar o que eu havia pegado. Eu saí.
Parei na frente da casa, encarando ela.
- Adeus. – Me despedi dele, em vão.
próximo capítulo: capítulo 2 - quando ele voltou
Muito bom este Primeiro capitulo ADOREI :)
ResponderExcluirsigo os teus tweets e são muito bons ;)
Beijos, continua!